domingo, 25 de maio de 2008

Antes e Depois do PC

Obra de Fátima Irene Pinto, muito bonito, adorei sua expressão e visão dessa mulher com relação a "vida" diante de um computador. Vale a pena ler..




Antes eu levava uma vidinha pacata. É bem verdade que por natureza, eu sempre fui caseira, e assim, no produto final da minha vida haviam as parcelas do trabalho, filhos, família, livros, música, filmes, algumas breves viagens e minhas caminhadas diárias pelos campos da minha terra. Vez por outra, eu dava uma quebra na rotina e saía para dançar. Tinha lá meus vazios e minhas angústias.

Estes sentimentos sempre foram minha marca registrada, mas que se agigantam, quando atravessamos a década dos quarenta a cinqüenta anos.
Amizades, poucas. Nunca busquei popularidade, mas nunca abri mão de qualidade nos meus poucos relacionamentos. E assim era, até que comprei o PC.

Comprei para meus filhos, quem diria, e no começo queria léguas de distância dele pois no trabalho eu já me aborrecia bastante com as freqüentes falhas do sistema e os problemas que vinham como decorrência. Mas quem tem um Micro em casa, mais dia menos dia resolve dar uma navegada. É como fumar. A primeira tragada é ruim e a gente se pergunta porque as pessoas fumam. Aí experimentamos outro cigarro e quando vemos o maço se tornou nosso companheiro inseparável. O mesmo posso dizer do Micro.

Mas acontece que este inexplicável aparelho me descortinou um horizonte cuja grandeza eu ainda não consigo mensurar. Fiz amizades que me são tão caras e valiosas como as da minha vida real. Antes, o que eram eventuais rascunhos que eu sempre acabava jogando no lixo a cada faxina, tornaram-se hoje textos e poemas carinhosamente abrigados pelos Sites que editam para mim, levando meu trabalho para milhares de pessoas.

Em prazo de um ano escrevi e publiquei um livro e outro já está a caminho, aguardando a hora certa para chegar na Editora ou quem sabe, virar um CD.
Conheci verdadeiras almas gêmeas , algumas promissoras e outras, impostoras, como diz um poema que cá chegou sem autoria... mas nunca me lembro de ter amado tanto e tão intensamente, em tão exíguo espaço de tempo. É como se a vida tivesse acelerado sua freqüência à velocidade da luz ...um torvelinho...um turbilhão!

Nunca vivi tantas e tão arrebatadoras emoções. Em frente à tela deste pequeno monitor , tenho derramado lágrimas verdadeiras como poucas vezes derramei na vida real. Lágrimas de alegria, de êxtase, de saudade, de emoção, e porque não dizer, de profunda comunhão com o outro ser, na outra ponta da linha.

Por esta telinha mágica chegam imagens celestiais que enchem meus olhos, músicas que me atordoam pela beleza e pela cadência, textos para profunda reflexão, poesias dos imortais e poesias de ilustres desconhecidos, que às vezes se imortalizam através de um único e memorável poema.

E assim, sem que eu percebesse, o PC foi ficando espaçoso demais na minha vida, a ponto de tomar conta de todo o meu tempo disponível. Eu me questiono muito e talvez outros poetas e poetisas internautas também se questionem, sobre até que ponto não estamos invertendo a ordem natural da própria vida, nesta troca do virtual pelo real.

Existem seqüelas negativas e não temo enumerá-las:

- Já não dou a mesma atenção de antes para a minha família e para meus amigos e amigas reais.
- Meu trabalho já não é o foco de todas as minhas atenções, muito embora eu nada tenha perdido em eficiência.
- Livros, TV, filmes, viagens? Raramente ou quase nunca.
- Meus instrumentos (teclado e violão) jazem esquecidos em seus cantos e quando os retomo, percebo que estou perdendo a destreza.
- Ambições materiais, como, trocar o carro pelo modelo do ano, reformas e benfeitorias na casa, mudanças na decoração que sempre me motivaram, hoje estão lá embaixo na ordem das minhas prioridades.
- Eu que não passava uma semana sem fazer as unhas, três meses sem procurar um bom cabeleireiro, seis meses sem inovar o guarda-roupas, calçados e acessórios, dou-me conta que estou usando as mesmas roupas de dois anos atrás, afora ter dispensado os dedos cheios de anéis, os brincos, os colares que eu escolhia com esmero, combinando com cada traje que eu usava.

Realmente... eu mudei muito depois que me casei com o PC e me pus a escrever.
Tudo isto será bom ou ruim? Esta troca é construtiva ou destrutiva?
Confesso que não sei. Talvez seja apenas mais uma fase da vida, mas quando olho o mundo lá fora ele me parece tão sem atrativos. E ainda que minha vista esteja péssima , minha coluna mais torta do que já era e meus pulmões escuros de nicotina, tudo que eu sei é que, neste momento minha mente e boa parte do meu coração estão inteirinhos dentro deste micro, espelhados na pequena tela deste monitor.

Será que a resposta não estaria na pergunta que meus filhos vez por outra me fazem?
- MAMÃE, VOCÊ NÃO PODERIA VOLTAR A SER COMO ERA ANTES???
E eu fico completamente perdida diante desta pergunta, porque tenho a impressão de que nunca estive tão plena, ou talvez, TÃO EQUIVOCADAMENTE FELIZ!!!

E já que tudo nesta vida tem um preço, não seria este o dízimo a ser pago, pela possibilidade de que daqui há muitos e muitos anos, alguém leia um único poema meu, que seja grandioso o bastante para resistir ao tempo e distinguir-me entre os imortais? Não há vaidade e nem logro nesta ventura. Mas quando sento aqui e me ponho a digitar neste PC é como se eu me encontrasse com o próprio Deus que me criou, que botou ferramentas em minhas mãos e agora me exorta de forma quase compulsiva, a escrever, escrever e escrever.

3 comentários:

Drak disse...

heheeh...
pior que é real né.
muito bonito..

GFOX disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
GFOX disse...

Talvez seja apenas mais uma fase da vida, mas quando olho o mundo lá fora ele me parece tão sem atrativos.


O mundo lá fora é uma criação nossa, assim como a internet. "O mundo lá fora" ainda está cheio de atrativos, aproveite o Google maps para pegar as direções e então faça uma viagem e veja de perto, ao vivo e a cores. Sinta.


E ainda que minha vista esteja péssima , minha coluna mais torta do que já era e meus pulmões escuros de nicotina, tudo que eu sei é que, neste momento minha mente e boa parte do meu coração estão inteirinhos dentro deste micro, espelhados na pequena tela deste monitor.


O micro também falha, assim como os humanos. E assim como os humanos, o micro tem uma vida útil, porém é bem menor a de nossa espécie.


Tudo isto será bom ou ruim?


Bom ou ruim?... Gostoso ou não?... Certo ou errado?...

Todos temos uma interpretação diferente, inúmeros pontos de vista para estas e outras perguntas. Cabe a gente saber.

Geffá